E se você pudesse conversar com o seu psicólogo ao longo do mês apenas abrindo um aplicativo no seu smartphone?
Um empreendedor brasileiro criou uma plataforma que conecta
psicólogos e pacientes por mensagens de texto, funcionando como uma espécie de
WhatsApp da terapia. O app é chamado Fala Freud e poderá ser usado em todo o
território nacional, colocando psicólogos do sudeste para atender pacientes do
centro-oeste e vice-versa.
Criado por Yonathan Yuri Faber, ele tem o objetivo de levar
o atendimento psicológico para locais em que não existem muitos psicólogos ou
para pessoas que não têm dinheiro para pagar por sessões de terapia.
A mensalidade do Fala Freud é de 300 reais. Metade desse
valor fica com o psicólogo que presta o atendimento via aplicativo, enquanto o
restante fica com a empresa de Faber. Semanalmente, os psicólogos precisam escrever relatórios
sobre o progresso dos pacientes. Antes do início do atendimento, o
psicólogo-chefe da plataforma faz uma triagem para identificar se a pessoa tem
ou não perfil para ser atendida por meio do app.
Por exemplo, pessoas com distúrbios psicológicos graves não
poderão ser clientes do aplicativo, pois precisam de um atendimento presencial. O aplicativo, entretanto, ainda divide opiniões de
psicólogos.
“O atendimento, ao contrário do que algumas pessoas pensam,
não irá substituir o da terapia presencial, ele será baseado em uma orientação,
um acolhimento e que com certeza ajudará muitas pessoas a evoluírem e se
tornarem cada vez mais inteligentes emocionalmente. Aqueles casos em que
realmente houver necessidade de um acompanhamento intenso indicaremos a terapia
tradicional”, afirmou Dayane Costa Fagundes, psicóloga que atenderá pacientes
por meio do Fala Freud. “Muitas pessoas têm dificuldades e estigmas para ir a
um consultório terapêutico, outras têm receio em falar frente a frente com
alguém sobre seus problemas.”
Já a psicóloga Renata Paula Monticcelli tem uma visão cética
em relação ao aplicativo: “A fala ou a escrita não detecta emoções verdadeiras. Elas
podem ser mentirosas. Na terapia, a pessoa se defende, se justifica e fala
coisas que às vezes fazem sentido, às vezes não. Se o profissional interpretar
a linguagem corporal, ele pode entender melhor os sentimentos verdadeiros do
paciente. A escrita é subjetiva. Não tem como eu por minha mão no fogo dizendo que o que eu escrevo será
interpretado da maneira que eu quero”, declarou a profissional, que tem 35 anos
de experiência em atendimento psicológico.
“Na terapia, é preciso ter vínculo com a pessoa. Não é como
abrir uma geladeira quando você precisa de alguma coisa”, disse Renata.
Faber, fundador do Fala Freud, sabe que existe uma
resistência por parte dos psicólogos, mas acredita que as gerações de
profissionais mais jovens irão se adaptar bem ao atendimento via app. Ele cita
o exemplo do bem-sucedido Talk Space, um aplicativo semelhante que oferece
orientação psicológica a pacientes nos Estados Unidos.
“A psicologia ainda é uma ciência muito moderna. A geração
de psicólogos que temos hoje no Brasil já é muito antiga. Essas pessoas
cresceram na era da TV e não na era do smartphone. Quando você entrega esse
aplicativo na mão de uma pessoa como essa, ela o enxerga com outros olhos. Mas
toda ciência evolui”, afirmou Faber.
O Conselho Federal de Psicologia deixa claro que o
aplicativo não substitui a terapia presencial.
“O atendimento clínico, a psicoterapia em si, não é
recomendável via aplicativos, Skype ou métodos semelhantes. Do ponto de vista
de uma terapia, isso não é regulamentado, está vedado. Não é possível fazer
atendimentos via app ou Skype”, afirmou Rogério Oliveira, conselheiro do
Conselho Federal de Psicologia.
“A psicologia vai além de conceitos simples, como escuta ou
fala. A psicologia tem diversos conceitos do atendimento clínico que vai muito
além do senso comum. Isso é uma barreira para as tecnologias atuais”, declarou
Oliveira.
O Fala Freud tem previsão de lançamento para o final de
julho, com 50 psicólogos, entre os mais de 2 mil interessados em participar do
app. No entanto, ele ainda precisa de uma parecer favorável do Conselho Federal
de Psicologia.
“O app precisa passar pelo crivo do Conselho para que os
profissionais não cometam falta ética, o que pode levar a uma cassação do
registro, bem como para que pessoas que não são psicólogos não atendam
pacientes de forma fraudulenta”, segundo Oliveira.


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