Esse sentimento nos faz priorizar as informações negativas e examiná-las de forma detalhada
Não é preciso ter depressão para
acordarmos numa manhã qualquer e, sem motivo específico, nos sentirmos sem
esperança no futuro e incapazes de lembrar eventos gratificantes. Uma simples
falta de ânimo já é o suficiente para acionar uma espécie de filtro que faz
nossa mente captar e recordar apenas informações negativas. É dessa forma que a
ansiedade atua: direcionando a atenção para estímulos específicos (em geral
negativos). Para compreender se ela é um problema, é preciso observar como se manifesta. Há diferença entre ficar ansioso diante de uma situação que representa ameaça real e ter esse sentimento como um traço de personalidade. No primeiro caso, ela é normal e saudável, pois cumpre uma função adaptativa essencial para a existência. A ansiedade nos incita a focar toda atenção naquilo que nos preocupa em um momento específico, mantendo-nos alertas para que possamos nos prevenir de consequências que podem ser prejudiciais.
Pessoas com transtorno de ansiedade, no entanto, tendem a se fixar com frequência em informações irrelevantes. Chegam, por exemplo, a observar um mesmo ambiente repetidas vezes, à procura de estímulos ameaçadores que, uma vez localizados, são evitados e controlados com dificuldade. Elas interpretam informações de maneira desfavorável e são mais suscetíveis a pensamentos negativos. Esse comportamento interfere em praticamente todas as áreas de seu cotidiano.
Emoções e respostas
A ansiedade determina o tipo de
informações que priorizamos e a forma como as interpretamos. Quando nos
sentimos pressionados por alguma situação, a
maioria de nós não é capaz de
considerar mais de uma opção nem de acreditar que existem alternativas viáveis.
No entanto, nos dias em que estamos felizes e otimistas, confiamos mais em
nossas capacidades e a mente fica mais aberta para enxergar diferentes pontos
de vista sobre o que nos preocupa. O problema pode ser o mesmo e talvez as
opções sempre estejam ao alcance, mas a forma de processar as informações
recebidas é sensivelmente diferente.
Essas diferentes maneiras de perceber o mundo são determinadas pelas emoções. De fato, alguns estados afetivos parecem moldar o funcionamento da mente para responder de maneira eficaz às demandas de uma situação. A ansiedade restringe o campo de visão da realidade e nos faz ver o mundo em “modo de ameaça”.
Essas diferentes maneiras de perceber o mundo são determinadas pelas emoções. De fato, alguns estados afetivos parecem moldar o funcionamento da mente para responder de maneira eficaz às demandas de uma situação. A ansiedade restringe o campo de visão da realidade e nos faz ver o mundo em “modo de ameaça”.
O modo como diferentes emoções
acionam maneiras opostas de se processar uma mesma tarefa foi o tema de um de
nossos experimentos. Selecionamos três grupos de estudantes para assistir a um
vídeo que mostra um homem armado assaltando um banco. Em seguida, cada grupo
visualizou, em separado, imagens com conteúdos emocionais diferentes: positivo
(esportistas recebendo troféus, paisagens, famílias), negativo (acidentes,
pessoas doentes, guerras) ou neutro (móveis, utensílios de cozinha). Após serem
expostos a esses estímulos, os estudantes foram convidados a tentar reconhecer,
entre fotos de vários homens, o rosto criminoso do vídeo.
Desempenhos diferentes
Os resultados mostraram que o grupo
que havia visualizado as imagens com conteúdo positivo realizou o teste de
forma mais eficiente. Todos os participantes do estudo haviam assistido ao
vídeo do assalto e nenhum fora previamente avisado do que teria de fazer, mas
os estímulos recebidos por cada grupo favoreceram ou complicaram a forma como a
tarefa foi realizada.
A explicação dos resultados obtidos é
simples, se considerarmos que o reconhecimento de um rosto requer um estilo de
processamento global: nossa atenção apreende desde aspectos gerais, como
tamanho ou formato da cabeça, o tipo do cabelo ou a cor dos olhos até algum
detalhe que pareça tornar aquele rosto inconfundível, mas que de forma isolada
não seria determinante. Os estímulos positivos parecem favorecer esse estilo de
processamento, que é o mais adequado para realizar tarefas que exigem a
observação de aspectos gerais – dessa forma, esse grupo obteve “vantagem” sobre
os que receberam estímulos neutros ou apreensivos.
Após esse experimento, os mesmos voluntários foram convidados a participar de
mais um teste. Dessa vez, a tarefa exigia a atenção em detalhes. Orientamos os
participantes a encontrar diferenças em jogos do tipo “sete erros”. Os três
grupos tiveram a mesma quantidade de tempo para localizar diferenças entre
pares de imagens aparentemente iguais. Como a ansiedade incita a observar
detalhes e informações aparentemente irrelevantes (que podem converter-se em
ameaça), as pessoas do grupo em estado de ansiedade foram mais eficazes nessa
tarefa, achando um maior número de diferenças em menos tempo que os outros
grupos.
Essa pesquisa mostra como a ansiedade
age sobre nossa capacidade de atenção: ela pode nos ajudar a localizar até a
mais insignificante ameaça, mas também pode contribuir para que vivamos
continuamente apreensivos.
Fonte: Scientific American
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