Quantas (e repetidas) vezes na
vida se falou – e se ouviu – o mandatório “não fica assim, não”? “Assim.” Assim como? Triste, recolhido (a), solitário
(a), apático (a), sem energia, sem perspectiva?
Entre uma recomendação e outra, o
“assim” tem se tornado uma sensação intransigente nas nossas vidas: melhor que
o “assim” não invada nossa rotina e os dias de quem amamos. Que fique bem
longe, que deixe de nos mostrar nossas limitações, que pare de impedir nossa
produtividade.
De um lado, temos estatísticas e
um urgente problema de saúde pública: em 2015, a depressão afetou mais de 350
milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Só no Brasil,
foram cinco milhões de pessoas. De outro lado, dúvidas, muitas dúvidas: quando
o “assim” diz respeito a uma tristeza e quando devemos suspeitar de depressão?
E se o “assim” se torna uma condição mais duradoura do que se imaginava ou se
gostaria?
Entre números tão expressivos e o
estigma sobre o assunto, fica evidente que a depressão precisa ser pensada com
delicadeza e seriedade, muito além de dados estatísticos. Relatórios numéricos,
quantidade de diagnósticos e recenseamento da saúde mental nos dizem pouco (ou
quase nada) sobre a realidade difícil e particular de cada pessoa que lida com
a chamada “doença da alma”.
Pensar a depressão acaba
levantando dois questionamentos importantes: (1) quando termina a tristeza e
começa um processo depressivo, e (2) o quanto a tristeza é desencorajada em
nossa sociedade.
Tristeza ou depressão?
A associação entre tristeza e
depressão costuma ser tão imediata que vez ou outra o senso comum afirma. Basta
ver alguém mais recolhido para se comentar: “Ele(a) está deprê”.
Em um estado depressivo, estamos
falando, quase sempre, das consequências de uma perda, não importa de qual
natureza – seja de uma pessoa querida (morte ou separação), de um emprego, de
um sonho que se mostra impossível ou de um projeto que se mostra inviável,
explica a psicanalista Tatiana Monreal Cano, doutora em Psicologia Clínica pela
USP e mestre em Filosofia pela Unicamp. Nesses
casos, o sujeito fica em uma situação na qual nada parece fazer sentido e a
possibilidade de elaboração fica bastante comprometida.
Segundo Cano, elaborar a perda é
dar um sentido a ela. É o equivalente a encarar um processo de luto, ou seja,
poder dizer adeus àquilo que se perdeu e voltar a investir em outra pessoa,
projeto ou sonho; em suma, promover novos laços. A dificuldade em elaborar esse
luto, de se desvincular dessa perda, é o pano de fundo de um processo
depressivo.
“Muitas vezes, o indivíduo que
está sofrendo acaba se identificando com a pessoa ou a situação perdida, e
passa a se recriminar de um modo muito severo quando, na verdade, essas
recriminações e acusações deveriam ser dirigidas para quem ou ao que foi
perdido. Do ponto de vista psíquico, é como se parte do sujeito passasse a
ocupar o lugar daquele que se foi e a outra parte o acusasse ferozmente por
tê-lo deixado.”
Por outro lado, sofrer uma perda
não significa, necessariamente, que a pessoa vá passar por uma depressão. A
dimensão do sofrimento gerado pelo que se perdeu é o que vai separar uma
tristeza de um processo depressivo. Neste último caso, a questão é que nem
sempre a pessoa é consciente daquilo que realmente foi perdido e de como isso a
afetou nas suas profundezas, pondera a psicanalista.
No processo de luto diante da
morte de alguém querido, por exemplo, “é esperado que a pessoa passe por um
período de recolhimento, tristeza e reflexão, no qual vários processos internos
ocorrem para enfrentar a dor gerada pela perda da pessoa amada”, esclarece
Cano.
“Mas se esse período se estender
por muito tempo, é provável que estamos diante de um luto impossível de ser
elaborado. É o momento em que se instala um outro processo, chamado de
melancólico ou depressivo.”
A dificuldade em superar uma
perda está relacionada à própria história de cada um, principalmente pela
maneira como os pais lhe ajudaram a lidar com as perdas e as frustrações,
sempre inevitáveis, em suas vidas. Por
isso, Cano insiste que, mais importante que dar tudo aos filhos, é ajudá-los a
criar condições para poder superar o sofrimento frente ao que não se pode ter,
encontrando e criando substitutos. “Por exemplo, ao invés de comprar um
brinquedo novo, por que não construir um com os materiais que já se tem em
casa?”, sugere.
De acordo com a psicanalista, a
diferença de uma pessoa para a outra é como ela vai lidar com todas essas
infelicidades, perdas e frustrações. Nesse sentido, a criatividade é de extrema
importância, pois é por meio dela que o sujeito pode encontrar saídas
alternativas: “A capacidade de encontrar e de
criar novas soluções é um sinal de saúde psíquica. Do contrário, tem-se a
paralisia, ou seja, a dificuldade de enxergar outras vias possíveis de
realização.”
De qualquer maneira, Cano ressalta
que dimensionar a tristeza é uma questão bastante complexa, principalmente
porque cada pessoa tem sua experiência particular da perda, sua capacidade de
suportá-la e sua maneira de significá-la no contexto das suas vidas. E, embora
a tristeza seja um afeto inerente a todo ser humano, existem momentos em que
ela pode se tornar insuportável.
“A partir do momento em que a
vida cotidiana passa a ser um peso para a pessoa, ou seja, quando tarefas
básicas como o levantar da cama e o preparar o café da manhã passam a ser um
fardo, existe aí um sinal de alerta a que é preciso estar atento.”
Em momentos de muita tristeza e
de dor muito profunda, o sujeito sente que a própria vida perdeu o sentido; daí
a necessidade de descobrir novos sentidos.
“Esse trabalho é o que cada um
precisa fazer individualmente; se for o caso, com a ajuda de um profissional,
em uma sessão analítica, onde a mente é estimulada a reencontrar o sentido
perdido”, afirma a psicanalista.
Buscar ajuda, portanto, pode ser
o caminho para lidar com o sofrimento — sobretudo quando ele paralisa, em vez
de ser um estímulo para a mudança e possíveis reavaliações.
É importante que essa ajuda venha
de um profissional capacitado pois, apesar de os pais, amigos(as) e
companheiros(as) se colocarem à disposição, nem sempre eles saberão como lidar
com a situação. Além disso, nem sempre aquilo que pôde ter sido bom para uns
pode ser para outros. Segundo Cano, a escuta neutra e imparcial do analista é a
mais indicada nestes momentos de angústia:
“Mas é bom deixar claro que uma
análise ou uma terapia não vão dar uma solução milagrosa, mas sim fornecer as
condições para que o próprio paciente encontre seu próprio caminho, o prazer e
o sentido perdidos, para que a vida volta a valer a pena ser vivida.”
A tristeza e a solidão também fazem parte da vida
Vistos com maus olhos pela mesma
sociedade que cobra a euforia e a felicidade ininterruptas, os momentos de
tristeza e de solidão, muitas vezes, são importantes para que o sujeito possa
reelaborar e ressignificar as perdas que sofreu ao longo da vida, enfatiza
Cano.
“O que é a nossa vida senão uma
constante reelaboração? Elaboração do que gente vive e também do que já viveu,
do que tem e do que não tem. A atribuição de novos sentidos. Quantas vezes a
gente olha e pensa ‘nossa, agora eu entendi aquilo que aconteceu comigo’?.”
Segundo Cano, a solidão e a
tristeza podem ser vistas como uma convocação para a ressignificação de um
passado eventualmente traumático. É também o momento em que se faz necessário
olhar para si mesmo e questionar as escolhas feitas, os projetos, a própria
vida.
“Nesse sentido, a solidão e o
recolhimento podem ser a ocasião para a busca de novos horizontes, sonhos e
projetos, pois não é incomum as pessoas viverem projetos que não são próprios.
Daí ser justamente a oportunidade de escolher aqueles que expressem o seu
desejo.”
Infelizmente, o sofrimento (e aí
incluímos a tristeza) não é nem um pouco bem-vindo atualmente, especialmente em
uma realidade em que o desempenho e a produtividade estão alinhados à noção de
sucesso. É como se cada frustração fosse vivida como uma derrota, e não como
acontecimento natural da vida.
“Muitas vezes os indivíduos são
intolerantes com eles mesmos. Eles não se permitem passar por momentos de
tristeza e vivem como se tivessem que estar sempre bem, postando selfies nas
redes sociais, com caras e bocas”, pondera Cano.
Persona non-grata, o sofrimento é
uma certeza em nossas vidas, por mais que teimemos em querer reescrever a vida
com linhas exclusivamente felizes, eufóricas e blindadas de qualquer tipo de
imprevisto.
“Sempre vai haver algum grau de
sofrimento. Se a gente parte do princípio de que o ser humano é imperfeito e
incompleto e, justamente por isso, está sempre em busca da perfeição e da
completude, a satisfação nunca será plena e eterna. Pelo contrário, só será
alcançada em momentos fugazes. Isso significa que sempre haverá uma parcela de
frustração para ser enfrentada e elaborada.”
Junto a essa fórmula de sucesso
baseada no desempenho e que ignora limitações e impotências, a sociedade
capitalista ainda aparece com uma tentadora visão de mundo: a ilusão de que nós
sempre vamos conseguir tudo.
“Essa enxurrada de produtos para
serem consumidos tem um objetivo: criar a ilusão de que a falta não existe. A
publicidade, sabendo que o que move o ser humano é o desejo – desejo de ser
amado, de ser perfeito ou querido -, cria a ilusão de que, de posse daquele bem
de consumo, vai se estar realizado.”
A psicanalista completa: “Em outras palavras, a sociedade capitalista
não só não oferece meios de o sujeito lidar com a falta como, pelo contrário,
dá a ilusão de que se ele tiver x, y, z, ele estará completo e feliz. E isso
não é verdade."
O problema é que lidar com a
incompletude ou com a falta é basicamente um resumo da vida de todos nós. “Passamos nossa existência em uma constante
busca daquilo que não temos em nós mesmos, mas que supomos existir em algum
lugar. Acontece que, se por um lado é isso que nos faz sair da cama todos os
dias, ou seja, ter a esperança da realização, por outro lado, podemos nos
tornar presas dessa armadilha, acreditando que nunca chegamos aonde supomos que
devemos chegar. Por isso, mais do que finalmente alcançar, é preciso sempre
sonhar e investir; em suma, desejar.”
Viver bem é o tipo de desejo tão
universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta,
o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o
próprio caminho.
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