Os objetivos da terapia, segundo Winnicott.

Vira e mexe alguém nos pergunta por que você faz terapia? Para que serve esta análise? Winnicott, psicanalista inglês responde estas perguntas de forma brilhante em seu texto: "Os objetivos do tratamento psicanálitico". Segundo o autor, a terapia serve para nós manter vivo, bem e desperto, mas acima de tudo, a terapia é para aqueles que querem necessitam e podem tolerá-la. 



"Ao praticar psicanálise, tenho o propósito de:

me manter vivo; 
me manter bem; 
me manter desperto. 

Objetivo ser eu mesmo e me portar bem.

Uma vez iniciada uma análise espero continuar com ela, sobreviver a ela e terminá-la.

Gosto de fazer análise e sempre anseio pelo seu fim. A análise só pela análise para mim não tem sentido. Faço análise porque é do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita análise então faço alguma outra coisa.

Sempre me adapto um pouco às expectativas do indivíduo, de início. Seria desumano não fazê-lo. Ainda assim, me mantenho manobrando no sentido de uma análise padrão.

A maior parte do que faço consiste na verbalização de que o paciente me traz no dia. Faço interpretações por duas razões:

1 - Se não fizer nenhuma, o paciente fica com a impressão de que compreendo tudo. Dito de outra forma, eu retenho certa qualidade externa, por não acertar sempre no alvo ou mesmo estar errado.

2 - A verbalização no momento exato mobiliza forças intelectuais. Minhas interpretações são econômicas, pelo menos assim espero. Uma interpretação por sessão me satisfaz, se está relacionada com o material produzido pela cooperação inconsciente do paciente. Digo uma coisa, ou digo uma coisa em duas ou três partes. Nunca uso frases longas, a menos que esteja muito cansado. Se estou próximo do ponto de exaustão, me ponho a ensinar. Além disso, na minha opinião, uma interpretação que contém a expressão "além disso" é uma sessão de ensino.

O que é que me traz o paciente hoje? Isto depende da cooperação inconsciente que se estabelece por interpretação mutativa, ou talvez antes. É axiomático que o trabalho da análise é feito pelo paciente e isto é chamado de cooperação inconsciente. Nela se incluem sonhos, o recordar e a narração deles de modo produtivo.

A força do ego resulta em uma mudança clínica no sentido do relaxamento das defesas, que são mais economicamente empregadas e alinhadas, sentindo-se o paciente não mais preso à sua doença, como resultado, mas livre, mesmo que não esteja livre de sintomas. Em suma, observamos crescimento e desenvolvimento emocional que tinha ficado em suspenso na situação original.

O fato essencial é que baseio meu trabalho no diagnóstico. Continuo a elaborar um diagnóstico individual e outro social, e trabalho de acordo com o mesmo diagnóstico. Neste sentido, faço psicanálise quando o diagnóstico é de que este indivíduo, em seu ambiente, quer psicanálise. Posso até tentar estabelecer uma cooperação inconsciente, ainda quando o desejo consciente pela psicanálise esteja ausente. 

Mas, em geral , análise é para aqueles que a querem, necessitam e podem tolerá-la. "


D.D. Winnicott - Os objetivos do tratamento psicanalítico :O ambiente e os processos de maturação. 

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